Escrito por Xu Sauro em 10 janeiro 2011

Uma das perguntas mais frequentes que recebo é sobre quando a cirurgia plástica é realmente indicada. Seja de pacientes, amigos ou da própria imprensa, as dúvidas de ”quando precisa fazer?” ou “é melhor fazer agora ou esperar?” são sempre recorrentes. E fazem muito sentido, afinal, passar por uma cirurgia é algo delicado e os resultados podem mudar radicalmente a vida de quem se submete ao procedimento.
Mas para se chegar a uma resposta, é preciso levar em consideração que essas perguntas podem ter enfoques variáveis: a mesma questão vinda de um paciente adolescente, de uma mulher após ter filhos ou, ainda, de outra que será submetida à retirada da mama por câncer, terá significados e respostas totalmente diferentes.
A saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um estado de bem estar físico, mental e social. Temos a tendência de pensar apenas no lado físico, em doenças e outros problemas, mas, na verdade, a qualidade de vida e o bem estar passam, obrigatoriamente, pela necessidade de nos sentirmos bem, e isso inclui não só o campo físico como, também, o mental e o emocional, pontos em que a estética pode ter uma importância decisiva. No entanto, pouco se discute a força da cirurgia plástica no campo psicológico: ela é muitas vezes vista com discriminação, como algo fútil e desnecessário.
Concordo que, nos dias de hoje, ocorrem excessos nas indicações e associações de cirurgias, seja por insistência do paciente, seja pelo médico. Há pacientes que procuram incessantemente cirurgias para tentar resolver problemas não tratáveis cirurgicamente, como distúrbios de auto-imagem, problemas no casamento, etc. Existem, também, médicos que indicam cirurgias para corrigir “problemas” dos quais o paciente nem se queixou. Tudo isso, claro, não deveria acontecer.
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Há, porém, outros casos em que a plástica adquire uma importância maior no campo psicológico do que no físico. Pacientes com leves orelhas de abano, algo que para os pais pode parecer irrelevante, podem sofrer constrangimento a vida toda por sentirem-se mal devido a essa característica. É comum nunca prenderem o cabelo ou sempre usarem cabelos compridos para esconder as orelhas. Já alguns pacientes com ginecomastia (crescimento anormal das mamas em homens), chegam a nunca tirar a camisa, ir à praia ou à piscina, tamanha é a vergonha das mamas aumentadas.
O complexo pode vir tanto de gozações e brincadeiras dos outros ou observação de alguém, quanto simplesmente por observação própria. Na verdade, nestes casos, pouco importa de onde veio o complexo: o que é significativo é que uma leve alteração física costuma trazer grandes restrições à qualidade de vida. Por exemplo, tive uma paciente que depois dos 50 anos disse querer colocar prótese de silicone na panturrilha porque nunca usou saia ou shorts desde a adolescência, depois que uma amiga falou que ela “tinha pernas finas”…
Nesses casos, a pergunta “Mas precisa mesmo operar?”, vinda de parentes e amigos, pode até soar um tanto quanto insensível. Afinal, somente quem tem a vida limitada por qualquer que seja a causa, sabe a importância da cirurgia. Muitas vezes, a gratidão e satisfação destes pacientes é muito maior do que a maioria dos que teriam “indicação” de consenso.
Minha resposta rotineira à pergunta “Quando a cirurgia plástica estética é necessária?” é: “Nunca! Se não fizer a plástica, nada muda, continua como está. Necessário é operar apendicite, que se não for tratada leva à morte. Mas, se algo a incomoda e você gostaria de mudar, posso avaliar se há como melhorar, dentro da segurança e da expectativa em relação ao resultado desejado”.
A cirurgia plástica, com o grande desenvolvimento técnico, alcançou um alto patamar de segurança e de resultados previsíveis, na maioria dos casos. Isso a tornou mais uma arma no arsenal da busca do bem estar físico e psicológico. Pacientes que se sentem com baixa autoestima, porque têm orelha em abano, mamas pequenas, porque a gravidez deixou sequelas ou por qualquer outro motivo, podem recorrer a cirurgia plástica. Não precisam esperar ficarem velhos ou outro motivo para terem o “direito” de sentirem-se melhor.
É preciso, no entanto, refletir qual a real motivação da cirurgia, se realmente o foco em questão incomoda e se a paciente está pronta para enfrentar um pós-operatório. Ela deve conversar abertamente e sem segredos com o cirurgião sobre a expectativa de resultado, para saber se é realista ou não. Logicamente, também cabe ao cirurgião dar limites e estimar a probabilidade de sucesso da cirurgia, tanto em relação ao resultado final, quanto à expectativa da paciente.
Tão importante quanto saber operar é saber quando e quem NÃO operar. Pacientes com expectativa irreal, com risco aumentado, com distúrbio de autoimagem ou que a técnica cirúrgica não permita o resultado esperado NÃO devem ser operados. Cabe ao especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) dar os limites e pensar no paciente, nos campos físico e emocional, antes de indicar qualquer cirurgia. Contraindico cirurgias todas as semanas no consultório, para o bem do paciente.
Infelizmente, hoje vemos muitos médicos não especialistas se divulgando como tal para fazer plásticas. Quem faz isso pensa mais no dinheiro do que no bem-estar do paciente, caso contrário, teria feito os 11 anos de estudos necessários para se qualificar especialista pela SBCP. Mas a legislação brasileira é falha e não coíbe isso. Cabe então ao paciente pesquisar sobre a formação do médico, ver se é membro da SBCP, escolher um cirurgião com quem tenha empatia e sinta confiança e, de preferência, conversar com algum paciente que ele tenha operado. Assim, a segurança aumenta sobremaneira e a probabilidade de sucesso também.
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Informações adicionais:
Fonte: Escrito por André Freitas Colaneri do Plena Mulher – A notícia foi retirada na íntegra do site da fonte. Por esse motivo, não podemos alterar o conteúdo da mesma até em casos de erro de digitação.
Imagens: Gregory Cinque