Flor do Deserto
Pela primeira vez um filme me fez mal. Primeiro veio um calafrio, minha pressão baixou e eu sabia que se não tivesse comido um pedacinho de bolo de cenoura acompanhado de um cafezinho antes da sessão, teria desmaiado.
Mas não me arrependo, e apesar do mal-estar, recomendo. Assistam “Flor do Deserto”. Não se trata apenas da biografia de uma linda e pobre garotinha que se transforma numa top model internacional. É a biografia de quem lutou para sobreviver. E que mesmo no auge, quando poderia muito bem ignorar tudo o que passou para desfrutar da fama, optou por relembrar e divulgar, porque o que ela passou, muitas ainda passam.
O filme conta a história da modelo somali Waris Dirie, nascida em 1965, que aos três anos de idade sofreu a mutilação genital feminina e aos 12, atravessou o deserto para escapar de um casamento forçado com um homem de 60 anos. Na capital Mogadisco, reencontra a avó que consegue um emprego para a neta na Embaixada da Somália em Londres. Passando a adolescência trabalhando como faxineira na Embaixada, Waris não teve contato com o mundo e mal aprendeu a língua inglesa. Com o fim da guerra em seu país, todos os funcionários da embaixada foram convocados a retornar ao país. Waris então foge novamente e passa a vagar pelas ruas de Londres. Pela solidariedade de uma desconhecida consegue o emprego de faxineira numa lanchonete, onde é descoberta por um fotógrafo de moda. A partir daí empreende uma nova luta para garantir sua permanência no país e construir sua carreira no mundo da moda.
Em 1997, no auge e cansada de sua história de gata borralheira repetida a exaustão pela mídia, Waris decide divulgar aquilo que poucos sabiam. Em uma entrevista a revista Marie Claire descreve sua mutilação.
Aos três anos de idade, Waris foi levada pela própria mãe a um local ermo no meio do deserto onde, sem anestesia e sem qualquer higiene, teve o clitóris, e os pequenos e grandes lábios totalmente removidos com uma navalha. Por sorte sobreviveu. Duas de suas irmãs e outras milhares não sobrevivem. E para as que sobrevivem restam os danos físicos e pscológicos irreversíveis – além da eliminação do prazer sexual.
Na região, suturada com espinhos, fica uma cicatriz e um pequeno orifício. Acredita-se que assim a mulher se manterá pura para o casamento. Na noite de núpcias o marido abre a cicatriz com um facão para poder penetrá-la.
Há outras formas de mutilação. Em alguns casos “apenas” o clitóris é removido. A mutilação de Waris provavelmente foi a mais violenta. Não tive coragem de pesquisar. De acordo com o filme 6 mil mulheres são mutiladas POR DIA!
O caso de Waris é extremo e estranho ao nosso país, mas nos faz pensar sobre todas as atitudes, costumes e pensamentos que discriminam a mulher. Pois é disso que se trata a mutilação, da perpetuação do poder masculino. Da negação de direitos e desejos a mulher. Apesar de todas as conquistas e liberdade, quantas vezes você já não se sentiu discriminada ou subestimada por ser mulher? O que já não lhe foi negado?
Waris é um grande exemplo. A vida toda lutou pela sua liberdade e há 13 anos luta pela erradicação dessa barbárie.
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Informações adicionais:
Fonte: Mutilação Genital Feminina, Waris Dirie Foundation, Matéria na TV UOL.
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